O que eu pensei a primeira vez que vi aquele sapato estranho que mais parecia uma meia com um pino de salto? Que “coisa” horrível.


O que eu penso quando vejo o fenômeno Vetements agora? O futuro.


Grave este nome, VETEMENTS. Você irá vê-lo por muito tempo.


Definitivamente a marca veio para ficar.


Há várias características que definem a Vetements e tentam explicar o seu sucesso meteórico.


Em uma pesquisa mais profunda sobre este fenômeno, encontrei vários tópicos e teorias que tentam explicar o diferencial da Vetements, para mim é um só: a moda precisa mudar e essa mudança precisa começar.


A Vetements começou.


Spring 2015 – Spring 2017


Pense na moda como um mundo paralelo, diferente do resto, a moda faz parte das humanas, das artes. No mundo da moda alguns padrões são postos de lado, tatuagens são permitidas, criar sem barreiras é o adequado, deixar a mente livre e fazer de cada desfile um espetáculo, onde o normal, o dia-a-dia precisa passar correndo das passarelas. Look 1, look 2, look 3, look 4 precisam ser diferentes do look-do-dia, precisa ser conceitual, precisa agradar, precisa vender. Precisa ornar com o que o fashion show pede e precisa fazer o show das vendas quando for para a prateleira da loja. Um mundo tão sem padrões do mundo “normal” mas absurdamente cheio de padrões criados de acordo com esse “novo mundo”: magreza, beleza, saúde, altura, rosto marcado, andróginos, “feito sob medida”, “feito para você”, “exatamente do seu tamanho”.


Fame, success & glamour.


Não, eu não sou louca, você deve estar pensando que pelo andar da minha dissertação eu vou terminar o texto com: É O FIM DO HAUTE COUTURE, A MODA VAI DEIXAR DE SER ESSE GLAM ENQUANTO PESSOAS PASSAM FOME NA ÁFRICA.


Pessoal, sou escolada no capitalismo e sou amante dele. Enquanto ele houver, ainda haverão Birkins sendo vendidas a preços de carros importados.


Lição do dia: se existe, há quem compre.


O foco aqui não é preço. É inovar. É passar uma mensagem.


A Vetements veio para isso.


Ela é cool, ela é hype, ela é underground, ela é cult e conceitual, ela surgiu de mentes que entenderam muito bem a Maison Margiela. Os setores são separados por características, a moda é assim, mas sabe o que é o mais incrível? O StreetStyle, UrbanStyle – já disse isso várias vezes, os termos são os que vocês quiserem – está no hype do Couture, fazendo um fashion show a la Beyoncé no SuperBowl.


Em 1870 junto com a Revolução Industrial no “Velho Mundo”, Napoleão viu o seu sim e a França levantou a bandeira com o seu lema: Liberté, Igualité et Fraternité, em 1920 as mudanças aceleraram e um dos períodos mais bonitos vividos em Paris começou, a Belle Époque. Tempos onde os artistas tinham livre pensamento e a maioria recorria a Ville Lumière para suas inspirações serem reforçadas. Desde esse período o mundo acostumou-se com as mudanças, com a vinda da tecnologia e inicio da revolução da informação, a velocidade com que as coisas acontecem já não é mais a mesma de antes, certos feitos não recebem a devida atenção, a moda teve o seu apogeu com Mademoiselle Chanel inventando as calças, parece que tudo já foi inventado. Nessa “monotonia” de novas marcas surge este fenômeno que segue as mudanças tão bem quanto as formigas umas as outras para se prepararem para o inverno.


Atualmente o que mais ouvimos é sobre sustentabilidade e a chave disso está no coletivo.


Oito, ôuit, eight, 8 pessoas criaram esta marca e bastaram 4 temporadas no circuito da maior semana de moda do mundo, para que eles já tivessem um livro de fotos, com imagens da última temporada, Spring Summer 2017 desde o backstage até o desfile.


O segredo deles?


Acompanhar a mudança corretamente e buscar seu DNA no futuro do mundo: os jovens.


Parar de olhar um pouco pro luxo clássico e dar uma atenção maior as beiradas. A Vetements é sobre ir a Paris e não fazer o clássico piquenique avec fromage et vin au Torre Eiffel mas sim conhecer o subúrbio que cresce e vem inflando a cidade.


DNA. DNA. DNA. DNA. ID.


OVER, para eles é o tamanho correto. OVERSIZE é a jogada. Se você olhar e pensar “mas tá sobrando muito pano ali”, então você acertou! É o que eles querem. Eles querem vender algo que dê vontade de usar.


Vetements – Spring 2017


Mais uma vez batemos em qual tecla? CONFORTO.


Sabe outra coisa que é OVER? Padrões de beleza.


O que vemos no famoso Victoria Secrets Fashion Show está bem longe do casting da Vetements, formado por amigos, modelos femininas com cabelo curtinho ou até mesmo carecas, misturas, onde vai ter mulher sim, no menswear e vai ter homem também no SpringSummer, no Fall, no Resort porque o mundo está


GENDERLESS.


Como diria uma pessoa que eu admiro: “a alma não possui sexo”, creio que a moda também não.


Bomber jackets, trench coats, jeans e moletons. É isso o que eles fazem melhor: o que as pessoas usam normalmente ou o que “pessoas normais” usam?


Acredite, na moda há esta diferença. Pessoas normais e pessoas da moda, não leve isso como algo preconceituoso, mas depois de um tempo conhecendo a sua área essa diferença é natural, como houve seleção natural no mundo, há seleção natural em todos os lugares, seja empresa, em casa e no segmento – se é que existe segmento.


Vamos ao que viemos: Resort 2017 Vetements + várias colaborações:


Acredite se quiser, praticamente nenhuma peça da coleção será produzida pela Vetements, porque? Eles anteciparam a coleção e a saída pensada pelo estrategista Demma Gvsalia – também diretor criativo da Balenciaga – foram as colaborações.


O discurso é inspirador e lindo: “Nós pensamos em ir atrás das marcas que fazem isso melhor e perguntamos se els topavam em fazer isso da nossa maneira, cada um. As pessoas que trabalham na Vetements na realidade nao usam grifes – muitas dessas, são as marcas que elas usam o tempo todo” – Demma Gvsalia.


Mas para quem trabalha com desenvolvimento de produto sabe como as coisas funcionam. Idéias surgem do nada e coleções podem ser alteradas ou criadas em prazos humanamente impossíveis, o que a gente faz? Vai lá e se vira.


Como eu disse, toda a coleção foi feita em parcerias, algumas delas são: Reebok, Comme des Garçons Shirt, Dr. Martens, Juicy Couture, Manolo Blahnik e a jamais vista em parcerias antes: Levi’s.


Vetements – Spring 2017


Breve estória: A Levi’s fez o primeiro jeans do mundo. A Vetements foi a PRIMEIRA MARCA DO MUNDO a estampar um jeans da primeira marca de jeans do mundo.


Como tradição, mais um desfile em lugar inusitado: Galeria Lafayette.


A jogada da Vetements lá no inicio, há 5 anos atrás, foi abrir as parcerias com multimarcas ao invés de abrirem lojas próprias, a antecipação do desfile deu-se por essa opção. Com isso as multimarcas irão receber 18 coleções durante a os próximos seis meses, em várias entregas, ao invés de receber apenas uma encapsulada.


A marca, possui uma legião de fãs, uma cartela de grandes artistas que já são loucos pela marca, um front row que conta com Kanye West e Rihanna, mas não com todos os rostos conhecidos de desfiles e sim New Faces em um lugar diferente das passarelas: nas cadeiras.


Definitivamente eles fazem a orquestra funcionar de maneira diferente, é só analisar as atividades e parcerias para ver a genialidade dos 8 sócios em fazer negócio – acredite, as decisões são tomadas em consenso entre todos.


Deixei para o final o que me chamou mais a atenção sobre a marca: os princípios dos donos.


Para eles é uma obrigação ficar longe dos holofotes, eles não gostam de serem fotografados e nem de selfies. A Vetements quer muito além do glamour, eles querem uma representação de marca. A mensagem deles é clara: Por uma moda mais cabível.