A semana de moda de São Paulo acabou e nos trouxe uma mensagem bem clara: precisamos TRANSformar.


Tive o prazer de assistir a desfiles e participar de dois grandes talks. Um com Suzy Menkes e outro com Lino e Miro, em ambos ocorreu algo muito parecido, nos dois talks foi falado de tecnologia e transformação.


Lino e Miro falaram de como as coisas estão sendo feitas de "qualquer jeito"e a pursuit por perfeição não é como antigamente.


Já Suzy, convidou todos ali presentes a pensar ao falar que os digital influencers e fashion bloggers foram uma das melhores coisas dos últimos tempos. Essas personalidades foram responsáveis por levar a moda para lugares jamais imaginados, além de serem uma ótima ferramenta para a indústria. Há um certo tempo Camila Coutinho falou algo a respeito de conteúdo, Suzy ressalta que os bons ficam, aqueles sem conteúdo desaparecem. 


Marina Caruso insistiu na tecla da mudança frequente de designers das grandes maisons e questionou o que isso pode afetar na marca: seu DNA.


Com um olhar talvez crítico demais, vi apenas desfiles assertivos, com referências internacionais e as mesmas TENDÊNCIAS em praticamente todos os desfiles, de todas as temporadas de moda - não vamos generalizar, há ressalvas, mas o pijama, a transparência, a renda e a sobreposição está presente, vou deixar o sportswear pro final.


Falando especificamente de Brasil, verdade seja dita: a maior TRANSformação nessa temporada foi a contenção, TODOS sem exceção, estão aprendendo a fazer com menos, vivemos um período grave de recessão e sem perspectiva de melhora. Só há espaço para aquele que sabe se reinventar e com certeza a edição 42 do SPFW foi isso, uma das maiores reinvenções dos últimos tempos.


Medo, cenário impróspero, uma quantidade absurda de marcas que deixaram de fazer seus Fashion Shows e fizeram lançamentos contidos ou festas com apoio.


Mas essa contenção chegou na criatividade também?


O mundo fashion está tomado pelo moletom e chinelinho slide? 


Sportswear everywear. Trocadilho irônico mas recíproco para com todos os desfiles.


Aceitem, dói menos. Essa é a tendência dos próximos anos, décadas, talvez seja o new black e fique para sempre.


Os tempos cada vez mais curtos estão aí, tempo é tão valioso quanto dinheiro e a roupa está seguindo esse comportamento, algum conforto em um dia tão apertado.



Comfy, gostoso, A&F, college, high school, GAP, Vetements, Kenzo...


Seja na über grife ou na marca para os jovens do ensino médio. Nike, Adidas, Puma vocês estão com uns concorrentes a mais e deixaram de ser exclusivas no quesito esportivo, até marca total sport nas passarelas esta edição teve.


Eu? Gostaria de usar moletom o tempo todo e toda hora. Com salto alto, com jaqueta perfecto. Só o blusão de moletom e uma havaianas ou bota, como vestido, como saia e as mangas amarradas, 1001 utilidades e uma única peculiaridade: será que isso funciona para todos? Estamos caminhando para uma moda mais democrática? A moda está sendo feita para quem?


Pouca gente do começo da moda nos 90 está nas passarelas ou em atividade até hoje, mas incrivelmente esses são os que estão fazendo uma moda ainda diferente, com ID, há marcas que fizeram um completo crtl-c, ctrl-v do Summer 2017 do hemisfério norte e apresentaram na temporada do hemisfério sul. O público pede mais, as barreiras construídas lá atrás da frivolidade em cima do mercado de moda estão sendo quebradas com as filosofias que estão sendo desfiladas, só a roupa não é mais suficiente, as pessoas querem comprar cultura, comprar ideologias, ideais, aquela velha história de ir até a loja e comprar algo por simplesmente querer passou, o consumidor se tornou consciente e resolveu gastar o seu dinheiro em causas e o algo mais. 


Será mesmo que a nova geração de compradores é apenas a geração Stan Smith, slide, oversize para sempre? E as gerações passadas, vão aderir? Vetements começou essa revolução há quatro temporadas, não que não existisse antes, mas um ideal foi desfilado e a idéia vendeu bem.


Se o rumo da moda for sportswear everywear, o que será da Gucci, Dior, Carolina Herrera, Tom Ford? Vemos traços esportivos por todos os lugares e acho isso incrível, uma mudança enorme em um segmento que ditava o uso de saltos altos e cintura marcada para a mulher.


A moda é expressão, a moda muda, se adpta, reflete as necessidades humanas.


Vejamos os protestos nos últimos desfiles a começar pela primeira coleção de Maria Grazia Chiuri na Christhian Dior, aqui no Brasil Ronaldo Fraga e LAB deram um soco na sociedade - verdade seja dita.



À La Garçonne é nova, mas chama a atenção do mundo, talvez pela maestria, fama e talento de Alexandre Herchcovitch ou mesmo pela ideologia da marca, o upcycling ajuda nesse momento TRANS e também proporciona peças customizadas, a marca é vintage mas sua ação é perfeita entre os dois paralelos: vintage (sua alma) e sportswear (o que o cliente quer), na mão de Herchcovitch e sua alfaiataria impecável, o sportswear se TRANSforma  em delicadeza, leveza e feminilidade, pense comigo: o desfile é o jogo, os modelos os jogadores, as roupas são a estratégia para o ponto e o penúltimo look desfilado na segunda feira 24.10 vale mais do que cesta de 3, não é à toa que todos se levantaram para aplaudir a segunda coleção da marca.


João Pimenta fez um desfile exclusivamente masculino, mas quer saber? GENDERLESS também é comportamento.  As peças lá desfiladas em um guarda roupa feminino fariam um trabalho tão bonito quanto no masculino. Cores leves, color blocking em tons pasteis, chuva de cabelos descoloridos e um Fashion Show que mexeu com as emoções das pessoas que estavam ali para assistir.


Mais do que uma critica falando que vi muito do mesmo, deixo uma constatação para aqueles que não gostam da palavra tendência como eu: sportswear, oversize, moletom, jaquetas, jeans e genderless não são tendências, são comportamento, está em todos os lugares e são quatro comportamentos que quebram barreiras, o streetwear virou febre. 


Sinto falta de Fashion Shows, de comportamento criado com alma, de TRANSformação de tendência comportamental em arte. Cada um pode fazer o que quiser e claro fazer mais do mesmo, mas não existe nada melhor do que ver o mesmo de maneiras diversas, onde você esquece que já viu aquilo antes, não faz nenhuma ligação e fica extasiado com a experiência. Culpa do capitalismo ou revolução industrial/tecnológica, precisa-se de demanda e a produção tem que supri-la, está corretíssimo, mas precisa haver um meio termo onde exista espaço para que a viagem da mente dos diretores criativos seja apresentada. 


Finalizo o post com o polêmico see now-buy now e aproveito da fala de Suzy Menkes "para alguns pode funcionar, para outros não de imediato". Vivemos atras de telas, procuramos por experiências que nos façam esquecer delas, experiências que vão muito além da visão e ultrapassem todos os sentidos, mas também pode ser que a era dos SHOWS de moda tenham passado e o see now buy now, tenha transformado os desfiles em grandes apresentações de vitrines ambulante e esse seja o novo caminho ao qual estamos todos imersos.