A morte de McQueen
Hoje, em plena sexta-feira de carnaval, para nossa cultura brasileira falar de morte chega a ser mau presságio. Eu, particularmente, acho que falar de morte é um exercício constante de valorização desta vida, vai ver que a resposta para essa minha afirmação seja a minha própria vida que desde muito cedo convivo e sei o que é a finita existência física de pessoas que amamos.
O mundo da moda desde ontem não tem mais Alexander McQueen, 40 anos, faltando 17 dias para fazer 41, filho de um taxista e uma mãe dedicada, que aos 16 anos largou os estudos e foi trabalhar na Savile Row Anderson & Sheppard, local da mais alta e perfeita alfaiataria mundial. Acabou aperfeiçoando seu estilo na St. Martin's College of Art & Design e a coleção de formatura foi comprada inteirinha por Isabella Blow que se torna sua amiga, mentora e o coloca frente a frente com os grandes investidores dos conglomerados da indústria da moda. Por isso passa por Givenchy de 1996 a 2001 quando foi comprado pelo grupo Gucci e deu graças à Deus por ter apenas que se preocupar com sua própria marca, diga-se de passagem, Alexander McQueen, McQ e as parcerias memoráveis principalmente com a Puma.
Este cara era o cara das celebridades do mainstream: Michele Obama, Rihana, Rachel Weiss e muitas e muitas outras Assim como das celebridades da controvérsia, que geram incomodo, pois questionam e são questionadas: Björk, e seu look chinesa na capa de um de seus CD´S, Kate Moss amiga e ícone em holograma e na camiseta vestida pelo próprio estilista em 2004, quando a modelo teve contratos rompidos devido às fotos de estar supostamente cheirando cocaína e mais recentemente Lady Gaga em seu último desfile verão 2010 transmitido ao vivo pela internet pelo ShowStudio com os extravagantes sapatos Armadillo desfilados na última coleção de verão, em Paris, chamada Plato´s Atlantis, que evocava a evolução da vida.
Sim, a última coleção evocava a evolução da vida e hoje ele está morto. A mim que o observo como designer, conceito, consumidora, (sim tenho tênis Puma McQueen) e vi muito de suas roupas perfeitamente modeladas, com um apuro têxtil, fabril e de qualidade impecável fico me perguntando: por quê?
Rico, famoso, bonito, casado, amigos famosos e com certeza com amigos de lá da sua origem, acaba com sua vida logo após a morte da mãe, Joyce. Claro, a dor é devastadora e digo mais, tem que se ter muita coragem para ficar e se reinventar. Mas McQueen se reinventada de seis em seis meses nós últimos 12, 14 anos em cada coleção com sua mãe na primeira fila e aí fica a minha pergunta, reinventar aqui ou lá em outro lugar, por que a dor é enorme de não ter aquele olhar único e insubstituível de quem o gerou, e vou mais além, à pressão eterna do novo por estar num conglomerado mundial da moda conta e maior que esses números do capitalismo temos aquele general interno que é o pior e esse deveria ser uma sombra enorme na cabeça, no coração e no espírito McQueen que agora era órfão, seguir essa viagem só ou ir para uma outra viagem?
Às vezes aqui o ar fica rarefeito, a dor mental vira física e a angústia e melancolia são sentimentos contínuos no dormir, viver e acordar dos dias, por isso é melhor ir para outra viagem e para isso a coragem, pra mim, é muito maior tirar essa existência e se jogar no obscuro, no controverso e desafiador mundo de viver outra existência.
Fanny, hoje tentando ser um pouco além da moda, mas falando da vida de quem criou e deixou um legado insubstituível e há décadas não tínhamos nada igual na história da moda, se sente órfã por não poder ver mais e mais McQueen, mas com um enorme respeito para que acorde numa viagem melhor do que a que me deixou, nos deixou. Obrigada por seu pensamento, aprendizado e obra Alexander McQueen e me desculpe o egoísmo, gostaria que no fundo você ficasse mais por aqui.
Fanny Littmann – Consultora PensoModa